terça-feira, 23 de outubro de 2012

Cirurgia na dança

Gosto do karma das pessoas que se movimentam conforme a batida do coração.
Gosto do jeito que o braço desliza em sintonia com o resto do corpo.
Gosto de saber que a cabeça e o corpo andam juntos.
Gosto de me deitar pensando em como saltar mais alto.

Gosto do barulho da ponta que roda em harmonia com o chão.
Gosto da música que fala mais alto e envolve o meu coração.
Gosto dos rostos que vejo ao meu redor, a vida é bela.
Gosto das dores depois de muito suar.

Gosto do estalo das costas ao querer descansar.
Gosto das idas e vindas de uma dor que não deu certo.
Gosto dos sermões que revolucionam personalidades.
Gosto da água que aquece a sede.

Gosto do limpo, do limpo em conjunto.
Gosto do riso, do palco, da pele.
Gosto do aplauso.
Assim como gosto de sentir meu corpo deslizar na música por impulso do sentimento.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Proposta de Igualdade de Gênero

A fábrica precisava aumentar as vendas então decidiu investir mais no conceito de um novo produto. A fábrica não queria algo revolucionário, para não chocar a sociedade crua. A fábrica queria algo que fosse rápido e de fácil acesso, assim, começou a investir em uma nova e mais esbelta boneca de plástico.
A boneca não precisaria ser um modelo de mulher do século passado, muito pelo contrário, ela deveria ser grande, fabulosa, o brilho dos olhos.
A fábrica era cheia de ferrugem e algumas máquinas mal funcionavam. Os pés, quando se viam pés, eram cheios de graxa e antes dessa graxa toda, eram envolvidos com uma camada grossa de borracha. as pernas e braços cobertos com um pano quente e cinza. Os trabalhadores que com as mãos já desgastadas de tanto encaixarem bracinhos de plástico, estavam quase mortos e camuflados pelo cinza do lugar.
As máquinas faziam um barulho horripilante ecoar nos ares da fábrica. O barulho era gritante e de hora em hora parecia ser tenebroso. As máquinas trabalhavam a todo vapor, como o navio Titanic.
As curvas das pequenas bonecas eram feitas em frações de segundos.
Mas todas essas curvas partiram de uma gravidez muito mais complexa. Não era nem setembro quando a loja declarou que iria quebrar se as vendas continuassem como estavam. Os empresários estavam atordoados em pensar na mais nova boneca de todos os tempos. Deveria ser um produto revolucionário, que esgotasse em segundos das prateleiras das lojas. Que todas as meninas gostariam de ter, e quem não tivesse, quem não tivesse entraria em desespero para ter uma.
Os dias não foram fáceis para ninguém na fábrica, choveu, inundou, o sol vinha vindo devagar e o brilho entrava aos poucos pela fresta da janela. A fábrica funcionava relativamente bem. O supervisor geral de marketing gritou, ao mesmo tempo a luz do sol clareou a sala inteira, eis que então o novo projeto para a boneca surgiu.
Muito melhor que qualquer Barbie por aí, a nova boneca era padronizada conforme as medidas reais das maiores modelos do universo. Suas roupas eram feitas baseando-se nas novas tendências e os acessórios eram brilhantes e exalavam glamour. Haviam bonecas de três tipos de rosto e cabelos. As loiras, consideradas as mais raras, as morenas, um tanto quanto ousadas e as ruivas que eram as mais normais.
A meta desse novo produto era atrair o público juvenil para se entreter com o brinquedo como um colecionador, não eram bonecas simples. Eram bonecas que só meninas especiais poderiam ter. Meninas que fossem parecidas com as novas bonecas.
A embalagem do produto era toda padronizada. As caixas eram pretas e apenas com o nome da marca escrito em paetê, para não estragar a surpresa das ansiosas meninas que disputavam para ver quem conseguia primeiro a boneca loira. Não foi muito difícil para convencer os donos da fábrica que isso funcionaria.
A caneta vinha e voltava na mão do colaborador, a indecisão vinha e voltava junto. O  tempo passava e os olhares aflitos dos empresários fixados na caneta que ia e voltava. O acordo foi fechado num piscar de olhos. E a todo vapor as máquinas começavam a produzir, e comerciais começavam a ser planejados e telefonemas atendidos e tecidos comprados, a fábrica parecia funcionar bem a partir daí.
Chegada das bonecas as lojas fora um tumulto para os logísticos que esperavam aflita-mente a vinda da clientela. As portas se abriram, e como um arrastão, centenas de crianças foram ao encontro das novas bonecas. Nesse dia, a loja, por causa do preço um tanto quanto caro, conseguiu vender por volta de umas 200 de quatrocentas bonecas. A semana passou lenta e algumas bonecas sobraram nas estantes da loja.
Um pai, com seus quatro machinhos vinham entram na loja, quando observaram a boneca surpresa, motivo de risada, motivo de piada. Passaram rapidamente pela aquela prateleira e foram direto aos carrinhos de metal. Porém, por alguma obra do destino cruel, um dos pequeninos ficou vidrado em descobrir qual era a boneca dentro da caixa e por mais que tive gostado muito, sabia que não seria tão fácil de descobri-la.
Pegou então, meio apavorado, com as mão tremulas a caixa preta e a colocou dentro do carrinho de compras da família. Os presentes eram tantos que o pai, distraído, não percebeu a boneca na lista de mercadorias, apesar de ter reclamado do valor final.
Ao chegar na sua casa, onde a mãe cozinhava um grande jantar para os meninos, o pai bebia cerveja e assistia ao jogo acompanhado de mais um filho. O resto estavam todos perdidos pela casa. A caixa foi pega discretamente. O menino entrou correndo no banheiro para finalmente saciar essa vontade de ver o que tinha dentro. Para não estragar a embalagem toda delicada, o menino foi abrindo aos cuidados, parte por parte, até conseguir uma abertura que a boneca desliza-se sobre o papelão preto. Loira!
A boneca era a loira, mas que sortudo esse pequeno menino. E ela era linda. Os olhinhos de bolinha-de-gude do menino brilhavam, a boca meio aberta e as mãos transpiravam. Alguém tentou forçar a maçaneta, mas o pequeno homem havia trancado a porta.
Sentou a boneca na beira da pia e ficou a observar por segundos que pareciam horas. Levantou-se em direção ao espelho e se olhava, e olhava a boneca e se olhava novamente. Cabisbaixo quis jogar a boneca no lixo, mas não teve tal coragem. A boneca parecia confortante para ele, era até mais bonita que sua mãe.
Escondeu a dentro da blusa e passou andando grosseiramente rápido até o quarto dos pais, roubou alguns batons de sua mãe voltou ao banheiro rapidamente.
Trancafiado por lá, se olhava. Passou o batom no rosto todinho e depois na boca. Se achou parecido com a boneca. Enquanto isso seu pai gritava a sua procura esperando pelo jantar. O pequeno, desesperado, correu tirar toda aquela porcaria do seu rosto, mas seria preciso muito tempo. Sentou na cadeira com o rosto meio avermelhado e falou que era por estar correndo muito lá fora.
Havia um porém, a boneca tinha ficado no banheiro. Durante os últimos minutos do jantar o menino aflito em voltar ao banheiro comia rapidamente. O pai percebeu tal insegurança e foi logo ver o que acontecia no banheiro para o menino olhar tanto para lá.
A casa entrou em alarde, mas um alarde horripilante. O que uma boneca fazia no banheiro, e o que os batons da mãe faziam atrás da privada? O pequeno homem foi apontado com milhares de dedos e rotulado com nomes feios dados pelos irmãos e pelo pai, mas felizmente a mãe achou aquilo tudo um absurdo e aliviou a barra do menino.
Sozinho no quarto, a noite, o menino chorava enquanto ouvia de sua mãe que ele não podia se vestir de tal forma, não podia passar batom vermelho, não podia querer brincar com a boneca. Essas atitudes são aceitas para meninas, não para mocinhos. O menino inocente, disse que só queria brincar porque sentiu vontade. A mãe um pouco atrapalhada com a situação, falou brutalmente que aquilo não havia cabimento e que o pobre estava equivocado e que era melhor parar de agir assim.
A mãe voltou a cozinha e terminou de lavar os pratos. A boneca perfeita agora fica no armário da mãe, junto das maquiagens, sapatos de salto e acessórios bonitos, nada mais.
Em um dia triste, quando todos os irmãos saíram, o pequeno pegou a boneca, cortou seu cabelo o mais curto possível, arrancou toda aquela roupa cheia de glamour e colocou um pano meio rasgado, parecendo uma regata. A boneca parecia um pequeno homenzinho e seria assim, a partir de agora que o pequeno rapaz poderia brincar.